O matemático
"Encontrei-a no Chiado e apresentou-me o marido. Ele olhou, mas não me viu, embora no seu rosto sorrisse uma simpatia vaga. Havia entre os seus olhos e o mundo o muro da sua distracção. Despedimo-nos - e lá seguiram os dois. Ela prendia-o pelo braço, como se assim impedisse que ele começasse a voar.
Soube depois que esse homem de ar ausente era professor e matemático. Dizia-se o seu nome e logo alguém acrescentava louvores a uma inteligência que se exercia num dos domínios mais complexos da matemática. E contavam-se histórias da sua desatenção e do seu desatino. Dizia-se que todos os dias perdia a carteira e a chave de casa. Dizia-se que fazia apenas metade da barba, esquecendo-se de fazer o resto - e era exacto, porque várias vezes assim o vi. Dizia-se que usava um sapato preto num pé e um castanho no outro - e também os meus olhos testemunharam a verdade disso.
A mulher era cantora de ópera. Cantava com uma fúria tão feroz e um fogo tão forte que se esquecia de afinar. Mas ins…
Soube depois que esse homem de ar ausente era professor e matemático. Dizia-se o seu nome e logo alguém acrescentava louvores a uma inteligência que se exercia num dos domínios mais complexos da matemática. E contavam-se histórias da sua desatenção e do seu desatino. Dizia-se que todos os dias perdia a carteira e a chave de casa. Dizia-se que fazia apenas metade da barba, esquecendo-se de fazer o resto - e era exacto, porque várias vezes assim o vi. Dizia-se que usava um sapato preto num pé e um castanho no outro - e também os meus olhos testemunharam a verdade disso.
A mulher era cantora de ópera. Cantava com uma fúria tão feroz e um fogo tão forte que se esquecia de afinar. Mas ins…