Sunday, April 12, 2015
Uma banda da Letónia - Pyro Trees
Se 'a rotina é o hábito de renunciar a pensar', dou-me conta que ontem renunciei à renúncia. Em boa hora o fiz. Deixei o computador a dormir para ser surpreendido pela música de uns putos -que lhe dão nas horas!- num pequeno bar com um nome sui generis 'I love you'. Custa mas às vezes lá se consegue pensar qualquer coisa...
Thursday, March 12, 2015
Investigação...
Aquele modelo econométrico em que investiste tanto de ti e que vai para o lixo,
Aquela dezena de moléculas que estudaste anos a fio e que vai para o lixo,
Aquele balde de lixo que teima em ficar cheio,
Aquilo que te tira do sério,
Se levada a sério, o sério que seria - porque, até aqui, andámos a brincar com o lixo, ou o lixo andou a brincar connosco!
Aquela dezena de moléculas que estudaste anos a fio e que vai para o lixo,
Aquele balde de lixo que teima em ficar cheio,
Aquilo que te tira do sério,
Se levada a sério, o sério que seria - porque, até aqui, andámos a brincar com o lixo, ou o lixo andou a brincar connosco!
Sunday, March 01, 2015
Os comentaristas e os comentadores
A viver por uns meses em terras de sua majestade, acabei de ver uma série sobre jornalismo em televisão que muito me agradou - The Newsroom. Se, na referida série, vejo serem retratados exemplos de bom e mau jornalismo, no mundo real, vou tendo o privilégio de acompanhar a BBC news ou a SKY News. Mesmo sem querer, tamanhas são as diferenças, dou por mim a fazer comparações entre aqueles e os canais de notícias em Portugal.
Por cá, contrariamente aos comentaristas em Portugal, existem comentadores.
Por cá, não abundam iluminados que falam de política, culinária, economia e futebol em simultâneo. .
Por cá, dão-se ao trabalho de convidar pessoas para falarem do que realmente sabem, normalmente investigadores ou professores.
Por cá, as missas de domingo são pontuais e os Marcelos teimam em ficar longe do grande ecrã.
Por cá, ao invés de um comentarista que fala sobre tudo e que nada diz, existem 3/4 comentadores por emissão que falam sobre uma matéria que dominam, dizendo muito sobre ela.
Por cá, escasseiam os iluminados!
Para os que defendem que a exportação é a cura da nossa economia, que tal exportarmos os nossos iluminados comentaristas? Nós temos muitos e os britânicos não! É uma oportunidade única para ajudar a nossa economia e... para sanar a principal doença do jornalismo em Portugal.
The Newsroom:
Saturday, February 28, 2015
Palrar
Dizem que o vento as leva,
Quando nem sequer as trouxe,
Ao engano inerente,
A parcialidade dos números é um mal menor.
Quando nem sequer as trouxe,
Ao engano inerente,
A parcialidade dos números é um mal menor.
Sunday, December 28, 2014
Camilo Lourenço diz que Portugal tem 10 milhões Camilos Lourenços?
(Réplica de queixa apresentada à RTP por conduta completamente inapropriada do Sr. Camilo Lourenço na sequência de afirmações contra o povo português)
"Boa tarde,
Acabo de ver a Antena Aberta com a pivot Alberta Marques Fernandes e o convidado Camilo Lourenço trocarem ideias sobre a privatização da TAP.
Ouvi, e passo a citar, o convidado Camilo Lourenço responder, de viva voz: "as pessoas não estudam, não se informam e dizem disparates".
Se, enquanto interessado em matéria económica, convivo muito mal com os dislates que o indivíduo em causa profere nos diversos media que lhe dão (inexplicável) cobertura - ele tenta falar de economês pois não consegue falar de economia! -, enquanto português senti-me ofendido com as palavras citadas.
Talvez fosse bom lembrar ao Sr. Camilo Lourenço que quem tem défice de estudo e informação é ele próprio pois é comentador da área económica/financeira não sendo economista. E, no entanto, não se coíbe de nos chamar "burros" em direto, espero que sem a conivência da RTP.
Foi um insulto que não deveria passar incólume! O mínimo expectável, em conformidade com a gravidade do sucedido, será a tomada de alguma medida por parte dos responsáveis da estação e em respeito de todos nós.
Cumps."
Saturday, November 15, 2014
O matemático
"Encontrei-a no Chiado e apresentou-me o marido. Ele olhou, mas não me viu, embora no seu rosto sorrisse uma simpatia vaga. Havia entre os seus olhos e o mundo o muro da sua distracção. Despedimo-nos - e lá seguiram os dois. Ela prendia-o pelo braço, como se assim impedisse que ele começasse a voar.
Soube depois que esse homem de ar ausente era professor e matemático. Dizia-se o seu nome e logo alguém acrescentava louvores a uma inteligência que se exercia num dos domínios mais complexos da matemática. E contavam-se histórias da sua desatenção e do seu desatino. Dizia-se que todos os dias perdia a carteira e a chave de casa. Dizia-se que fazia apenas metade da barba, esquecendo-se de fazer o resto - e era exacto, porque várias vezes assim o vi. Dizia-se que usava um sapato preto num pé e um castanho no outro - e também os meus olhos testemunharam a verdade disso.
A mulher era cantora de ópera. Cantava com uma fúria tão feroz e um fogo tão forte que se esquecia de afinar. Mas insistia, persistia, resistia. Cantava para amigos e amigos de amigos. Cantava até para inimigos. Quando estava, fosse em casa própria ou alheia, ouvia-se o seu canto. Certa vez, alguém que a escutava atirou uma palavra brusca: "Esganiçada!" Mas a dona da voz achava-a sublime ("Tal como eu, também a Callas é muito criticada!", dizia).
Um dia, fui a casa deles. Na sala, ela ensaiava com um pianista. Repetia as árias que cantaria à noite, numa festa. No escritório, ele fazia cálculos em papéis que se espalhavam sobre a secretária, que desaparecera. Entrei e acenei-lhe. Ela retribuiu-me o aceno e, enquanto cantava uma ária da "Tosca", apontou na direcção do marido, levando depois o dedo à cabeça, a significar: "É maluco!" Fui cumprimentá-lo, e ele, sem largar a caneta, tocou com o dedo sujo de tinta na testa, indicando, a seguir, a sala donde vinham os trinados da mulher, como quem diz: "Está doida!" Mas eram um para o outro como o numerador e o denominador de uma fracção.
Conhecido de perto, o professor era encantador. Se o conseguíamos fazer descer à terra, conversava com graça e sabedoria. Gostou de mim e tornou-me indispensável. Encontrava-me e parecia uma criança a falar do que lhe interessava. Quem nos viu dizia que também eu não lhe ficava atrás no regresso à infância. Numa tarde chuvosa, morreu subitamente, e a viúva passou a gritar a sua dor nos sítios onde aceitavam ouvi-la. Escolhia as árias mais trágicas - e a voz subia-lhe a alturas ainda mais elevadas, por caminhos ainda mais íngremes.
Lembrei-me deste distraído professor e da sua mulher soprano ao saber que foi dado ao matemático russo Grigoriy Perelman o Prémio Milénio do Instituto de Matemática Clay, destinado aos eleitos que resolvam qualquer dos sete transcendentes problemas que estão em aberto, ditos "as sete maravilhas da matemática". Foi o que o russo fez ao demonstrar a complexa Conjectura de Poincaré, enunciada pelo matemático francês, em 1904, na área da topologia, que trata das formas tridimensionais e das propriedades estruturais dos objectos. Perelman não aceitou a Medalha Fields, o Nobel da Matemática, que lhe foi atribuída há quatro anos, e agora recusou o Prémio Milénio e o seu milhão de dólares. Explicou que não precisa nem de dinheiro nem de fama.
Este duplo desdém por aquilo que toda a gente procura reforçou-lhe a fama de "génio doido". Quando os jornalistas lhe telefonaram, enfureceu-se e disse para não o incomodarem, pois estava a colher cogumelos. Perelman vive, com a mãe idosa, num apartamento de um modesto bairro de São Petersburgo. Distraído e excêntrico, faz aquilo que ninguém faz (solucionar problemas quase impossíveis) e não faz aquilo que toda a gente faz (tomar banho, pentear-se, cortar as unhas, dizer banalidades, ser convencional e conformista). As fotografias mostram-no barbudo, hirsuto, desgrenhado, selvagem. Parece um pope ortodoxo; ou um homeless. Mas vê-se-lhe nos olhos uma inteligência rara e bondosa. Toca violino, joga ténis, tem uma cabana na floresta, é pouco quotidiano e totalmente desinteressado dos bens materiais. Um instinto certo desvia-o do injusto, do falso e do inútil. Este J.D. Salinger da matemática defende a sua privacidade com unhas e dentes. Quer o tempo para o que gosta e não gosta de o perder. Distrai-se do que não lhe interessa para não se distrair do que lhe interessa.
No centro do Inverno russo, na velha casa de São Petersburgo, insensível ao frio que vem do Báltico e num silêncio atravessado pelas rezas maternas aos ícones iluminados pela lamparina vacilante, vejo Grigoriy Perelman fazendo os seus cálculos e, com uma inteligência que persegue Deus, conceber a forma do Universo. Neste tempo pequeno, que mais avalia o que menos vale, encontro alegria em saber que ainda há gente fiel a uma grandeza, exacta como um teorema, feita de números que não servem apenas para contar dinheiro ou medir riqueza."
Publicado por José Manuel dos Santos no Expresso em 2010
Wednesday, October 15, 2014
Carta 'fechada' aos abutres da nossa região...
Esbracejo na tentativa de ficar à tona,
Mas vejo-me com peso a mais.
Por ora, o fundo é a minha casa,
A podridão, à superfície, o meu telhado.
Por aqui tudo é escuro,
Os podres lá em cima fazem sombra.
É difícil, mas eu consigo vê-los,
E consigo falar deles,
E deles continuarei a falar.
Acorrentado na corrente,
Tateio o fundo que me resta,
À procura de apoio para emergir.
Um dia será aquele dia,
Uma perpetuidade para viver,
Não para ser abutre,
Chegam-me os que vejo daqui.
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