Sunday, December 28, 2014

Camilo Lourenço diz que Portugal tem 10 milhões Camilos Lourenços?

(Réplica de queixa apresentada à RTP por conduta completamente inapropriada do Sr. Camilo Lourenço na sequência de afirmações contra o povo português)

"Boa tarde,
Acabo de ver a Antena Aberta com a pivot Alberta Marques Fernandes e o convidado Camilo Lourenço trocarem ideias sobre a privatização da TAP.
Ouvi, e passo a citar, o convidado Camilo Lourenço responder, de viva voz: "as pessoas não estudam, não se informam e dizem disparates".
Se, enquanto interessado em matéria económica, convivo muito mal com os dislates que o indivíduo em causa profere nos diversos media que lhe dão (inexplicável) cobertura - ele tenta falar de economês pois não consegue falar de economia! -, enquanto português senti-me ofendido com as palavras citadas.
Talvez fosse bom lembrar ao Sr. Camilo Lourenço que quem tem défice de estudo e informação é ele próprio pois é comentador da área económica/financeira não sendo economista. E, no entanto, não se coíbe de nos chamar "burros" em direto, espero que sem a conivência da RTP.
Foi um insulto que não deveria passar incólume! O mínimo expectável, em conformidade com a gravidade do sucedido, será a tomada de alguma medida por parte dos responsáveis da estação e em respeito de todos nós.
Cumps."

Saturday, November 15, 2014

O matemático

"Encontrei-a no Chiado e apresentou-me o marido. Ele olhou, mas não me viu, embora no seu rosto sorrisse uma simpatia vaga. Havia entre os seus olhos e o mundo o muro da sua distracção. Despedimo-nos - e lá seguiram os dois. Ela prendia-o pelo braço, como se assim impedisse que ele começasse a voar.

Soube depois que esse homem de ar ausente era professor e matemático. Dizia-se o seu nome e logo alguém acrescentava louvores a uma inteligência que se exercia num dos domínios mais complexos da matemática. E contavam-se histórias da sua desatenção e do seu desatino. Dizia-se que todos os dias perdia a carteira e a chave de casa. Dizia-se que fazia apenas metade da barba, esquecendo-se de fazer o resto - e era exacto, porque várias vezes assim o vi. Dizia-se que usava um sapato preto num pé e um castanho no outro - e também os meus olhos testemunharam a verdade disso.

A mulher era cantora de ópera. Cantava com uma fúria tão feroz e um fogo tão forte que se esquecia de afinar. Mas insistia, persistia, resistia. Cantava para amigos e amigos de amigos. Cantava até para inimigos. Quando estava, fosse em casa própria ou alheia, ouvia-se o seu canto. Certa vez, alguém que a escutava atirou uma palavra brusca: "Esganiçada!" Mas a dona da voz achava-a sublime ("Tal como eu, também a Callas é muito criticada!", dizia).

Um dia, fui a casa deles. Na sala, ela ensaiava com um pianista. Repetia as árias que cantaria à noite, numa festa. No escritório, ele fazia cálculos em papéis que se espalhavam sobre a secretária, que desaparecera. Entrei e acenei-lhe. Ela retribuiu-me o aceno e, enquanto cantava uma ária da "Tosca", apontou na direcção do marido, levando depois o dedo à cabeça, a significar: "É maluco!" Fui cumprimentá-lo, e ele, sem largar a caneta, tocou com o dedo sujo de tinta na testa, indicando, a seguir, a sala donde vinham os trinados da mulher, como quem diz: "Está doida!" Mas eram um para o outro como o numerador e o denominador de uma fracção.

Conhecido de perto, o professor era encantador. Se o conseguíamos fazer descer à terra, conversava com graça e sabedoria. Gostou de mim e tornou-me indispensável. Encontrava-me e parecia uma criança a falar do que lhe interessava. Quem nos viu dizia que também eu não lhe ficava atrás no regresso à infância. Numa tarde chuvosa, morreu subitamente, e a viúva passou a gritar a sua dor nos sítios onde aceitavam ouvi-la. Escolhia as árias mais trágicas - e a voz subia-lhe a alturas ainda mais elevadas, por caminhos ainda mais íngremes.

Lembrei-me deste distraído professor e da sua mulher soprano ao saber que foi dado ao matemático russo Grigoriy Perelman o Prémio Milénio do Instituto de Matemática Clay, destinado aos eleitos que resolvam qualquer dos sete transcendentes problemas que estão em aberto, ditos "as sete maravilhas da matemática". Foi o que o russo fez ao demonstrar a complexa Conjectura de Poincaré, enunciada pelo matemático francês, em 1904, na área da topologia, que trata das formas tridimensionais e das propriedades estruturais dos objectos. Perelman não aceitou a Medalha Fields, o Nobel da Matemática, que lhe foi atribuída há quatro anos, e agora recusou o Prémio Milénio e o seu milhão de dólares. Explicou que não precisa nem de dinheiro nem de fama.

Este duplo desdém por aquilo que toda a gente procura reforçou-lhe a fama de "génio doido". Quando os jornalistas lhe telefonaram, enfureceu-se e disse para não o incomodarem, pois estava a colher cogumelos. Perelman vive, com a mãe idosa, num apartamento de um modesto bairro de São Petersburgo. Distraído e excêntrico, faz aquilo que ninguém faz (solucionar problemas quase impossíveis) e não faz aquilo que toda a gente faz (tomar banho, pentear-se, cortar as unhas, dizer banalidades, ser convencional e conformista). As fotografias mostram-no barbudo, hirsuto, desgrenhado, selvagem. Parece um pope ortodoxo; ou um homeless. Mas vê-se-lhe nos olhos uma inteligência rara e bondosa. Toca violino, joga ténis, tem uma cabana na floresta, é pouco quotidiano e totalmente desinteressado dos bens materiais. Um instinto certo desvia-o do injusto, do falso e do inútil. Este J.D. Salinger da matemática defende a sua privacidade com unhas e dentes. Quer o tempo para o que gosta e não gosta de o perder. Distrai-se do que não lhe interessa para não se distrair do que lhe interessa.

No centro do Inverno russo, na velha casa de São Petersburgo, insensível ao frio que vem do Báltico e num silêncio atravessado pelas rezas maternas aos ícones iluminados pela lamparina vacilante, vejo Grigoriy Perelman fazendo os seus cálculos e, com uma inteligência que persegue Deus, conceber a forma do Universo. Neste tempo pequeno, que mais avalia o que menos vale, encontro alegria em saber que ainda há gente fiel a uma grandeza, exacta como um teorema, feita de números que não servem apenas para contar dinheiro ou medir riqueza."

Publicado por José Manuel dos Santos no Expresso em 2010

Wednesday, October 15, 2014

Carta 'fechada' aos abutres da nossa região...













Esbracejo na tentativa de ficar à tona,
Mas vejo-me com peso a mais.

Por ora, o fundo é a minha casa,
A podridão, à superfície, o meu telhado.

Por aqui tudo é escuro,
Os podres lá em cima fazem sombra.

É difícil, mas eu consigo vê-los,
E consigo falar deles,
E deles continuarei a falar.

Acorrentado na corrente,
Tateio o fundo que me resta,
À procura de apoio para emergir.

Um dia será aquele dia,
Uma perpetuidade para viver,
Não para ser abutre,
Chegam-me os que vejo daqui.

Sunday, October 20, 2013

MANIF OU A EXTENSÃO DA POLÍTICA PELA SUA INEFICIÊNCIA

Nunca passara o Tejo assim, 
Nas suas margens diz-se existir uma democracia, 
Eu não a sinto, porventura terá perdido os sentidos, 
Temo estar morta. 

Rejubilo, porém, com a ideia de a poder trazer à vida,
A vida, esse direito perdido nunca extinto pela obrigação de a recuperar,
Dá azo ao desfile na ponte na ânsia de a readquirir.

Autênticos desfibrilhadores, os autocarros carregam esperança,
A nossa e a dos que tomaram o sofá para se manifestarem,
Oxalá o valor da portagem não seja em vão,
Ainda que todos sejamos poucos, façamos nós por isso.




Tuesday, October 15, 2013

Cangurus, uma lua quadrada com pintas cor-de-rosa e o Orçamento de Estado para 2014

Um monte de aldrabices na apresentação do Orçamento de Estado para 2014! Entre outras, assumir que o consumo privado irá crescer em 2014 é como acreditar que Portugal será invadido por cangurus no próximo ano! Esta gente não mente - afinal conseguem convencer-nos de que uma aldrabice é diferente de uma mentira! - e damos com eles a afirmar, de forma convicta, através de uma linguagem cuidada e escorreita, que a lua é quadrada e com pintas cor-de-rosa flutuantes, que é o mesmo que dizer que o investimento irá crescer em 2014.

Aliás, o orçamento reflete a enorme prioridade do executivo na dinamização da economia. A preocupação com o crescimento económico é visível através da redução do orçamento do ministério da economia em 26,8%! Há cortes na educação, na saúde e na justiça mas as verbas previsionais canalizadas para o ministério da defesa aumentam 6,8%. Ele há prioridades... a defesa, pois claro! Afinal sempre é costume dizer-se que a melhor defesa é o ataque! E que ataque... Esta gente deve ser julgada pelo que está a fazer ao país!


Tuesday, August 27, 2013

John Kerry diz que a utilização de armas químicas na Síria é "inegável"

O que é inegável é que, à revelia da ONU, os EUA invadiram o Iraque porque, supostamente, detinha "armas de destruição maciça". Os EUA têm-nas, já o Iraque... talvez nem canivetes suiços! 

O que é inegável é que os EUA, com a sua sofisticada rede de espionagem, não olha a meios para atingir os fins geoestratégicos que incessantemente persegue.

O que é inegável é que os EUA, país com visível preocupação face ao suposto ataque com gás Sarin, foi o fornecedor daquele gás mortífero ao Iraque, concretamente ao seu aliado de então, Saddam Hussein.

O que inegável é que nunca um laureado com o prémio nobel da paz foi signatário de tantas mortes espalhadas pelo globo. 

À luz dos media que temos, são ténues as diferenças entre factos inegáveis e pretextos inegáveis para usurpar recursos alheios à custa de mais sangue! De inegável a irrevogável ou a qualquer palavra acabada em ável já sabemos o quão fiável é - e cá está mais um ável!

Wednesday, July 03, 2013

Não basta ser sério, é preciso parecê-lo!

Das coisas mais acertadas que ouvi alguém dizer o ano passado nunca deveriam ter sido ditas, pelo menos por quem as disse. A lucidez de quem o diz e a assertividade do que é dito não legitima qualquer pessoa ou instituição para o fazer abertamente. Confuso!?

No ano passado fomos convidados a emigrar pelo Secretário de Estado da Juventude e do Desporto. Nada mais acertado! Eu próprio o digo a mim, várias vezes ao dia, a amigos meus, família, etc. Porém, é inaceitável que um elemento do governo o faça! Esta conduta, além de eticamente reprovável, revela a incapacidade do executivo para reverter a situação vigente, incorrendo no erro de publicitar a intenção de desperdiçar recursos, nos quais invariavelmente se investiu num passado recente. No fundo, revela desnorte e desespero.

Na mesma linha, este exemplo servirá para inúmeras instituições.

Por exemplo, imagine-se que a universidade que frequento se situa no bairro alto. Será que tal facto legitimará os seus responsáveis a persuadir os alunos a escolherem a instituição de ensino porque ali é a melhor zona de copos de Lisboa? Não me fica mal a mim dizê-lo e frequentá-lo com amigos - aliás, confesso que tenho saudades! - mas tenho para mim que a promoção da universidade à custa desse facto, revelador de desespero, ser-lhe-á altamente prejudicial, por muito que os promotores da ideia pensem o contrário. Não basta ser sério, é preciso parecê-lo!  

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"Pelas tuas mãos medi o mundo  E na balança pura dos teus ombros  Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua." Tu, sempre tu, minha pr...